Página 60 - Turcaça 33

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CAÇA MENOR
s pessoas dizem que os
caçadores mentem. É
verdade É verdade que as
p e s s o a s o d i z em , s u b -
rep t í c i amen t e , o i ns i nuam,
abertamente, o apregoam ou
largamente o publicitam. Isto é, por
todo o lado há gente a afirmar que
nós, os caçadores, mentimos.
Só nos resta a triste consolação, se
é que alguma consolação nos pode
restar depois de sermos assim
vilipendiados, que isto não é só de
agora. Vem do antigamente. Já em
1946, quando eu, pela aldeia, com
os meus quatro aninhos e meio de
idade e de amorosos e abundantes
caracoizinhos azeviche, traquinava,
de calção curto modelo único e
racha aberta, eu sei lá…conforme
a moda, já nessa altura, R. Villatte
Dês Prugnes, a prefaciar “Souvenirs
de Chasse de Louis Roudault, Ex-
chef gard-chasse du Duc de Morny,
á Nades (Allier) “, na página 13,
prevenia:
“Q’un chasseur parle sans langue
Et fasse même harangue
Je le crois bien.
Qu’ayant une langue, au contraire,
Un chasseur puísse se taire,
Je n’en crois rien!...”
Quando o autor da referida obra
prefaciada, Emile Pauly, em vários
juízos, também professa a mesma
doutrina e na página 81… faz a
festa, deita os foguetes, apanha as
canas e, triunfalmente, dá mais
uma no bombo da festa :…”tout
chasseur, t ou t men t eur ! . . . ”
E daqui para os nossos tempos,
que ainda há dias numa revista da
especial idade, que devia ser
responsável, eu pude ler, acreditem,
o articulista a dizer que
o povo di z:…”em
tempo de perdizes,
tanto mentes quanto
dizes!.”... Imaginem!...
Em q u a l q u e r
restaurante, bar, café,
sombria taberna ou
recatada tertúl ia é
vulgar aparecerem
pregados na parede,
me l h o r o u p i o r
emoldurados, quando
não aí colados com fita
já amarelecida e a
desfazer-se, alusões
a essa c r end i ce
popular, chamemos-
lhe assim. Regra geral
é o já famigerado
“Aqu i r eúnem- se
C a ç a d o r e s ,
Pescadores e outros
mentirosos !” numa
folha de papel já
queimada pelo tempo
e generosamente
referenciada pelas
moscas de há três ou mais gerações
(delas!) para cá.
Outros, perdidos nas suas judiciosas
ma s dema i s p r e t en s i o s a s
apreciações, começam bem mas
depois, perdem-se. É por exemplo,
o caso do que foi Chanceler do
Império Alemão, Otto von Bismarck
que, segundo consta, desabafou
que no seu entendimento “…nunca
se mente tanto como em vésperas
de eleições, durante a guerra e
depois da caça.” Lá está. Cá está
mais um. E gente grande, pelos
vistos. Quanto às eleições e à
guerra, agora digo eu, tudo bem.
Mas depois, contra os caçadores,
descambou. Deixou assim passar