Página 61 - Turcaça 33

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CAÇA MENOR
a preciosa oportunidade de legar
aos vindouros para todo o sempre,
uma frase tão bombástica como
esta mas que fosse também
totalmente verdadeira. Perdeu-se
no último desiderato. Paciência.
Também…ninguém é perfeito!
Não é que até há um restaurante,
“Casa de Pasto”, a que alguém pôs
também o nome de “O Caçador, o
Pescador e outros mentirosos” ?
Imagine-se! Eu até já lá fui uma vez
…espiar! E lembro-me que fiquei
triste porque, ao fim e ao cabo, lá
pelo menos a comida é muito boa
e o v i nho a i nda me l ho r .
Enfim…sempre
ele há horas…
Não quero meter
no mesmo saco
o saudoso e
s e m p r e
lembrado Tio
J o ã o . J á o
conhecem. O tal
que contava com
r e q u i n t a d o
humor que um
seu vizinho na
aldeia tentava
sempre impingir
a facécia dum
amigo que um
dia matara uma
lebre tão grande,
lá para os lados
de Trás-os-Montes, (ainda por
cima!), que para entrar no Porto
teve que ser antecipadamente
esquartejada e cozinhada…O Tio
João. O “Brasileiro”, porque esteve
18 no Brasil, ou o “Camião”, porque,
devagar e bem, chegava sempre
onde tinha de chegar. Às vezes o
encontro com ele era mesmo ali,
logo á nossa chegada, se a caçada
tinha sido nas proximidades da
aldeia e onde ele já estava no
terreiro à espera, em amena
cavaqueira com o nosso Pai e
outros e enquanto nós, ainda
eufóricos e transpirados, a arfar ao
desafio com os cães, libertávamos
as perdizes abatidas dos atilhos do
cinturão, as sopesávamos com certa
vo l úp i a, (ou remorsos?) , e
suspendendo---as pelo bico, lhes
a l i s á v a m o s a s p e n a s
descompostas, lhes contávamos os
esporões e procurávamos as pintas
pretas dos perdigões reais... Noutros
dias era já na Casa da Fraga, a
nossa casa paterna, ou em casa
dele na Boavista, connosco à mesa
a retemperar forças comendo,
bebendo e descansando as pernas,
que o convívio se ia espraiando em
e n r e d a d o s e i n f i n d á v e i s
pormenores. Vinha à baila o marrar
espectacular do Rubi ou da Foca ,
o doble mesmo ao dobrar do cabeço
com o Tarzan a trazer á mão,
impecavelmente, uma e logo a
segui r a out ra, aquele t i ro
atravessado a outra já larguíssima,
mais uma de bico e outra de rabo,
aquela lebre que se foi depois de
errada ao primeiro tiro só porque
ao segundo a arma negou fogo e
aquela raposa a que já só se
viu a ponta do rabo a acenar…E se
a nossa conversa era de facto quase
sempre a mesma, o comentário do
Tio João também não variava muito,
com a sua proverbial bonomia a
espetar dissimuladamente, também
ele, o acerado ferrãozinho da dúvida
: “-Olha lá, ó menino! Tu tens
fotografias disso?”.
Até os meus netos! Usualmente tão
crentes e ufanos das façanhas
cinegéticas do Avô e um dia destes,
eu já com as fotografias dum bom
javardo abatido de véspera, nas
mãos, a acabar de caracterizar, isto
é, est i l izar a di f iculdade e a
espectacularidade do lance e logo
um deles a disparar e a acertar-me
em cheio:”-Ó Avô, isso foi mesmo
assim?...Se calhar… nem foste tu
que o mataste!...”E agora?...Pois é!
Pois é! Sim, que agora é que
finalmente me ocorreu o termo
correcto, que afinal nem é meu.