Página 62 - Turcaça 33

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CAÇA MENOR
Estilizar. Os caçadores, segundo já
alguém escreveu; não mentem ;
estilizam. (1). Ainda segundo essa
fonte…”…pecamos por excesso de
fantasia, nunca à míngua de
verdade…a nós, caçadores, falta-
nos a arte de saber calcular, justa
e parcimoniosamente, o meio termo.
Pegamos nos pincéis e zás!
“Pochada” para a direita, “pochada”
para a esquerda, depressa cobrimos
a t e l a t o d a…j u l g am - n o s
exage r ados , es t i l i zado r es ,
mentirosos (!!!), quando somos
apenas sinceros….” (2).
Que aos caçadores, agora sou eu
quem o diz mais uma vez, também
acontecem co i sas que não
acontecem à maioria dos restantes
mortais De um me lembro eu que
contava não vai há grande tempo e
eu até nem fui o único a ouvir, que
numa espera nocturna com
companhia “cinco estrelas” se deu,
às tantas, a passar gozadamente a
mão por umas cerdas muito macias
Só tarde demais se apercebeu que
uma estava dum lado e o outro do
outro, mais à mão, digo eu…O javali
não apreciou a meiguice e arrancou
furibundo. A ser verdade, quem sou
eu para duvidar, que susto não
apanharam os três! E agora, então,
como vou eu fazer alguém acreditar
em que, com um tiro a cerca de
quinze passos “convenci “um javali
de sessenta ou setenta quilos a
deixar no chão, inteirinho, o coração
e a só se deixar cair, de morto ,
percorridos mais cinquenta passos?
Tenho fotografias!... E já que
estamos a falar de corações, um
dia, o meu Irmão Capitão deu um
tiro a uma perdiz, de chofre, a
poucos metros e apanhou-a em
cheio, desfazendo-a no ar. Á procura
dela no mato rasteiro só encontrou,
dispersos, fragmentos de ossos e
de órgãos, penas, sangue e o
coração que, na palma da sua mão,
quando a correr cheguei ao pé dele,
ainda batia. Eu vi!... Não tenho é
fotografias.
E aquela do então Director do
Colégio da Régua, grande caçador
e amigo dos meus familiares, ter
dado, comigo ao lado, dois tiros a
uma lebre, de rabo, (quem é que
dizia que uma lebre de rabo é um
saco de chumbo?...), que continuou
a correr como se não fosse nada
com ela, até uma linha de água aí
a duzentos metros, voltou para trás
e com ele à procura de dois
cartuchos para meter na espingarda
e comigo também de boca aberta
de espanto, e a dez metros, nem
tanto, de nós, deu um salto ao ar e
caiu morta? Quanto a fotografias
disto também não tenho…Mas, aqui
, não adiantavam nada. Só se fosse
uma filmagem. Mas eu vi com estes
meus dois olhos que a terra há-de
comer!
Já para não falar de outro caso que
também não posso documentar com
fotografias. Depois duma semana
de Inverno rigoroso, o sol apareceu
a amenizar-nos um sereno dia nos
montes e vinhedos sobranceiros ao
Pinhão, onde de manhã eu e o Rubi,
o rei dos cães, íamos direitinhos a
elas. Com quatorze tiros, uma
ca t or zada , d i r i a Tomaz de
Figueiredo, não tirei sequer uma
pena a uma. De tarde, na mesma
companhia, com o mesmo tempo,
com os mesmos cartuchos, com os
mesmos olhos e o mesmo dedo
indicador da mão direita a puxar o
gatilho da mesma espingarda,
mantida a integridade física e de
posição do ponto de
mira, com cinco tiros
dependurei cinco
perdizes!
O s c a ç a d o r e s
e s t i l i z am? Com
certeza!...Estilizam
s i m ,
m a s
dev i damente! No
r e g r e s s o d uma
caçada às perdizes lá
para Trigaches, nos
arredores de Beja,
depois duma barrigada de andar
quase todo o dia com a bota direita
rebentada e o pé a cal car
directamente o monte e as pedras
e em que por isso fiquei muito mal
visto e além disso só matei uma
lebre e duas perdizes, eu, ao lado
do condutor, meu amigo e anfitrião
e toca o telemóvel. Era outro amigo
e confrade de Santo Huberto.
–“Então como é que correu a
caçada?”. E logo eu ainda suado e
de pé direito a escaldar: -“Muito
bem!...Uma maravilha!...Eu matei
nove e aqui o Manel matou treze!”.
O tal Manel encolheu-se todo: -“Ó
Doutor, não diga isso!”. Mas eu
acalmei-o. –“Não faz mal…ele já