Página 63 - Turcaça 33

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CAÇA MENOR
sabe que é mentira!”. O que
telefonara ouviu a conversa toda
de modo que escangalhámo-nos
todos três a rir!...
E já agora só mais uma. A última.
A maior. Quando, numa noite de
Outubro do ano passado, 2011,
cheguei a casa, como de costume,
com apetite e entrei na cozinha,
veio-me ao nariz um aroma
conhec i do e de l i c i oso . Já
involuntariamente a salivar destapei
o pequeno tacho com algo a ferver
ao lume em cima do fogão, a
merecer a imediata e inevitável
admoestação de minha mulher,
constatando, radiante, que a canja
estava já pronta a comer. –“Canja
de perdiz?.Donde veio essa
penosa?”. Interroguei eu a esfregar
as mãos, de guloso”. –“Vamos para
a mesa, que já te conto!”. Só
estávamos os dois e a rescendente
perdizinha com molho de vilão e
arroz de cebola ia desaparecendo
goela abaixo, não sem que a minha
mulher cont inuasse a negar
elucidar-me sobre a proveniência
de tão saboroso pitéu. –“Só te digo
no f im! . . .Se estás a gostar,
come!...Se não, deixa!.” Saíram-me
à boca do i s chumbos que
investiguei rolando-os entre o
polegar e o indicador da mão direita
e depois na palma da mão
esquerda, acabando
por os colocar ao
meu lado em cima
dum guardanapo de
papel . De “sete”. A
m i n h a mu l h e r ,
fel izmente, gosta
pouco disto e como
isto, eu gosto de o
s a b o r e a r
calmamente, acabei
por dar por bem
empregue o tempo
gasto a av iar o
petisco e a refrear a
minha curiosidade.
De facto, só no fim,
após o meu ah! ..de
satisfação depois de chuchar a
última asinha foi que ela apareceu
com um papelinho onde por minha
mão estava escrito, perfeitamente
legível : “Perdiz. 22/X/2000”.
Estivera desde essa data na arca
c o n g e l a d o r a d e v i d ame n t e
conservada e referenciada!...Mas
só depois dum café forte e dum
dedal de boa e velha bagaceira foi
que dei comigo a pensar…Sendo
assim, tem que haver um registo!
E lá estava na Agenda de Caça :
dormida de véspera em Mogadouro
e caçada em 22/X/2000 em S.
Pedro da Silva, dia em que matei
uma perdiz e uma codorniz e o meu
Irmão, zero. Acho que se tenho
sabido disto antes, o
petisco, desconfio,
a i nda me t i nha
sabido melhor… Mas
então…como nesse
registo se pode ler,
t a m b é m
h á
f o t o g r a f i a ! F u i
p r o c u r a r…e
exacto…lá estou eu
todo vaidoso, Minha
à direita, Tonho à
esquerda e perdiz e
codorniz à cinta.
Impressionado, só o
meu neto Sérgio
Artur, nas fotos que
fiz questão de lhe tirar no dia
seguinte com o fruto da caçada.
Mas que bem me soube aquela
perdizinha…(de h)á onze anos!...E
tudo comprovadamente verdadeiro,
com f o t ogra f i as e…t udo ! . . .
Digam lá agora que os Caçadores
são mentirosos!
Aliás, se assim não fora, também
eu diria aqui, como o outro disse e
desculpem a repetição do disse-
que-disse, porque eu diria mesmo
que…”devo dizer, aqui muito à
puridade, que se alguma vez
resolver confessar-me hei-de
escolher por padre um caçador.
Assim ao menos, nem ele se
admirará da inverosimilhança das
minhas proezas cinegéticas nem
eu do exagero da penitência….” (3).
(1)-João de Briteiros, citado por Cunha e
Sá em página 3 de “Galgas & Lebres.
Contos Humorísticos de Caça”, Araújo e
Sobrinho Sucres. 50, L. de S.Domingos-
Porto-1932.
(2) e (3)-Mesma obra do mesmo autor em
páginas12-13 e 22, respectivamente.