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CAÇA MAIOR
esgueirando-se pelas obscuridades
do amendoal. A terra tinha sido
lavrada para remover as ervas
d a n i n h a s e o p l e n i l ú n i o
proporcionava uma excelente
clareza. Evitava atravessar as limpas
para não ser detectado, a atenção
focada no burburinho satisfeito do
banhista ocasional. Acabara de
transpor uma amendoeira cuja
ramagem o escondia, quando foi
surpreend i do por um j ava l i
acober tado nas t revas dos
medronheiros que bordejavam o
campo. O encontro inesperado,
brutal, cheirando o negro invisível
ali à beira, o regougar cavernoso,
os fortes assopros e a inalação da
poeirada das correrias, provocou-
lhe violenta comoção. O fim deste
instante interminável foi abrupto,
assim como começara, tudo acabou!
Aturdido, ouvia o bater dos cascos
que se afastavam e, cada vez mais
longe, o chiar dos listados. Quando
o foram recolher, estavam bem
visíveis no solo os pormenores da
dramática investida. Sem dúvida
uma noite memorável, angustiante
mesmo, em que o acaso o conduziu
a cruzar o caminho de uma porca
com crias. Era assim que gostava,
con t rar i ando , sa t i s f e i t o , as
recomendações de prudência dos
mais velhos. E repetia, divertido:
“no
stress”
Quando volveu às deambulações
da marrã algo se modificara. Já não
se apercebia dos bacoritos e o vulto
parecia mais volumoso. Aprofundou
a pesquisa com as ópticas, através
do telémetro confirmou os cinquenta
e sete metros que os separavam,
mas o esforço foi inconclusivo
devido às sombras do luar. Não
identificava com rigor o vagabundo
da clareira. Obstinado, procurou
certificar-se da saída da pequena
vara. Os minutos eram cada vez
mais longos e da canalhada brava
nem sinais. Tinham desaparecido.
Com a calma característica destas
ocasiões, ligou o minúsculo ponto
vermelho, descontraiu-se e, pleno
de auto-conf iança, apontou.
Enquanto recuperava a visibilidade
após o disparo, relaxou e aguardou
um bom pedaço durante o qual
vasculhou com o máximo de
aumentos todos os recantos
possíveis. No lugar, surpreendido,
nada vislumbrou. Os companheiros,
distantes, perguntaram o que se
passara. Relutante, respondeu que
parecia ter falhado… A resposta
desencadeou um chorri lho de
mensagens humorísticas e de
ped i dos para os aguardar.
Dirigiu-se ao local onde presumia o
alvo. Chegou em simultâneo com a
viatura dos parceiros. Do quarto
crescente emanava uma luz mortiça,
mínima. As lanternas iluminavam
tudo à procura de indícios de
sangue. Nada. Errara com todas as
letras. E tinha mirado tão bem!
Estreara-se no fracasso e o seu
sabo r ama r go impunha - se
lentamente. O pior era aguentar os
c ome n t á r i o s g a l h o f e i r o s .
Convencidos da inutilidade do
rebusco voltaram para o carro. O
mais velho, insatisfeito, alargou a
volta e, com uma exclamação de
contentamento, descobriu uma
pasta sanguinolenta sobre umas
pedras. O frenesim apossou-se dos
caçadores que seguiram o rasto que
ninguém tinha visto. Nemmeia dúzia
de metros andados e ali, dentro das
estevas, estava um enorme varrasco
com uns dentes de respeito. Um fio
vermelho brotava do ponto de
entrada do projéctil no coração.
Afinal, gabavam os comparsas
satisfeitos, o rapaz continuava
certeiro. Carregaram o pesado
animal que ultrapassou as sete
arrobas. Mais uma vez, o seu modo
de caçar alcançara o sucesso.
Reg i s tava ma i s uma no i t e
inesquecível, um bom troféu, mesmo
com uma amoladeira partida - ou
talvez por isso - e o convívio especial
com dois velhotes de estimação
.
J.A.N.