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CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
As aves exóticas em Portugal
Helena Batalha (colaboradora da SPEA)
ATurcaça publica, nesta edição, a segunda
parte de um artigo dedicado às aves
exóticas em Portugal, da autoria de uma
colaboradora da SPEA, a Sociedade
Portuguesa para o Estudo das Aves. A
primeira parte debruçou-se sobre a
adaptação excepcional de algumas dessas
aves à natureza lusitana. Agora, o conteúdo
aborda os perigos que essa invasão pode
acarretar para os nossos ecossistemas.
s aves exóticas podem
apresentar vários perigos
para as nativas e para os
ecossistemas. Podem introduzir
doenças e parasitas a que estas
sejam vulneráveis, como foi o caso
da malária das aves no Havai. Outro
perigo é o cruzamento de espécies
exóticas e nativas aparentadas, que
pode levar ao desaparecimento da
variedade nativa original. Este é o
caso do pato-de-rabo-alçado-
americano, que pode hibridizar com
o pato-de-rabo-alçado-europeu
Oxyura leucocephala
. Outro perigo
po t enc i a l é a compe t i ção ,
nomeadamente por alimento ou
locais de nidificação, em espécies
que nidificam em cavidades de
árvores. Por exemplo, nos parques
de Bruxelas, o periquito-de-colar
compete com a trepadeira-azul
Sitta
europaea
pelas cavidades de
nidificação nas árvores. As aves
exóticas que se alimentam de frutos
podem ainda ajudar a dispersar as
sementes de frutos de plantas
i nvasoras no ecoss i s t ema .
É difícil prever quais serão os efeitos
de um ave introduzida, já que estes
dependem das características desta
e das nativas, do próprio local de
introdução, da forma como as
exóticas se adaptam ao novo
habitat, do facto de a introdução ter
lugar em ilhas ou continentes, das
pressões que já existam sobre as
populações de nativas, entre outros
fatores.
Em Portugal, não há estudos
concretos sobre os impactos das
aves exóticas nas nativas ou no
ecos s i s t ema . No en t an t o ,
recentemente foi fei ta uma
comparação entre as características
ecológicas do bico-de-lacre e das
aves nativas, e concluiu-se que o
bico-de-lacre é ecologicamente
bastante diferente da maioria dos
passeriformes nativos, e parece não
constituir uma ameaça para estes,
em termos de competição. Pode,
porém, ser uma ameaça adicional
para a espécie ecologicamente mais
semelhante, a escrevedeira-dos-
caniços
Emberiza schoeniclus
, que
já tem estatuto de conservação
vulnerável, porque nidifica na
mesma área onde esta ave ocorre,
e também se alimenta de sementes
durante parte do ano.
RECOMENDAÇÕES
As aves exót icas surgem na
natureza devido a l ibertação
deliberada ou fuga. Muitas são
introduzidas no país ilegalmente.
Em dezembro de 2012, e a título de
exemplo, a Pol ícia Judiciária
apreendeu 304 aves exóticas
protegidas em duas operações no
norte do país.
Para muitas pessoas, é tentador
libertar uma ave engaiolada, por
achar que será mais feliz em
liberdade. Porém, nunca se devem
libertar aves ou quaisquer outras
espécies exóticas, porque estes
podem adaptar-se tão bem que
acabam por constituir populações
residentes, o que pode, em último
caso, pôr em perigo as espécies
nativas. Também não é boa prática
matar qualquer ave exótica que se
apanhe, uma vez que estas nem
sempre são prejudiciais. Esta será
sempre uma decisão a ser tomada
pelas autoridades competentes.
O que se pode e deve fazer é
r e p o r t a r à s a u t o r i d a d e s ,
nomeadamente a GNR-SEPNA,
casos ilegais de aves em cativeiro,
e avistamentos de aves exóticas
em liberdade, sobretudo se estas
aparecem num local onde ainda não
tinham sido avistadas ou se o
número parecer aumentar. Hoje em
dia, a monitorização e conservação
da avifauna assenta em grande
pa r t e em obse r vações de
voluntários, que também podem
registar as suas observações em
d i v e r s o s p o r t a i s c omo o
PortugalAves, gerido pela SPEA.
Assim, o seu contributo é essencial
para monitorizar a biodiversidade e
identificar potenciais situações de
r isco, possibi l i tando assim a
prevenção de problemas maiores.
Artigo escrito ao abrigo do novo acordo
II Parte