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CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
para além dos 40% da área com
vegetação emergente (a que sai da
superfície da água e/ou está nas
margens), é fundamental que nos
60% de área de água livre existam
zonas mais profundas, onde garças
e cegonhas não consigam perseguir
as crias andando e a probabilidade
destas aves predarem crias de aves
aquáticas é muito reduzida se
tiverem de ir a nadar! No entanto,
também devem existir áreas de
água l ivre com profundidade
reduz ida para fac i l i tarem a
alimentação das crias das aves
aquát icas – são zonas mais
produt ivas e onde há mais
alimentação.
Para as espécies residentes, os
locais de muda são também
fundamentais. A época de muda
resul ta do facto destas aves
aquáticas renovarem as penas
primárias – as que garantem a
capacidade de voar – todas ao
mesmo tempo, ficando cerca de
quatro semanas sem voar – os
chamados “mancões”. Os machos
de Pato-real geralmente começam
a fazer a muda logo no fim de Maio
e quando começa a caça emAgosto
já a maioria terminou esta fase. No
caso das fêmeas, o processo é mais
complicado pois têm de realizar a
postura dos ovos, incubá-los e
acompanhar as crias até às 6-7
semanas de idade (no caso do Pato-
real). Juntando ainda o facto de
algumas fêmeas tentarem segunda
ou mais posturas, resulta que a 15
de Agosto mais de 50% das fêmeas
estão ou ainda terão de fazer a
muda, com cerca de 10% destas a
completar a muda depois do fim de
Setembro. Esta é a razão que nos
leva a defender o adiamento do
começo da caça às aves aquáticas
para o início de Outubro, mas
também indica que as zonas de
refúgio devem ser geridas também
como zonas de muda – para além
do referido anteriormente para as
zonas de reprodução, há que
garantir que em Agosto e Setembro
as zonas de refúgio mantêm um
nível de água mínimo que ofereça
as condições de alimentação e de
segurança suficientes para as
espécies existentes – neste período
é fundamental que a qualidade da
água também seja boa, para
maximizar a produção de vegetação
submersa que, juntamente com os
invertebrados que alberga, servem
de alimentação a estas aves. De
referir que as frisadas, zarros-
comuns e patos-trombeteiros fazem
a muda cerca de quatro semanas
mais tarde, e que algumas
marrequinhas e piadeiras vêm fazer
a muda em Portugal (por vezes
ainda em Dezembro!...), logo as
zonas de refúgio terão de ser
geridas também em função disso,
tendo uma massa de água com o
mínimo de segurança e de
alimentação disponível também no
Outono/Inverno.
O exemplo já referido da Quinta do
Canal/Ínsua, ilustra a importância
das zonas de muda ao mostrar que
com a destruição da zona de refúgio,
que também era zona de muda,
foram os adultos que mais sofreram,
pois foram caçados em menor
proporção depois da destruição
(tiveram que realizar a muda a mais
de 13km, logo não voltaram tanto à
Quinta do Canal), e foram aqueles
que emagreceram mais – mais de
100g nos patos caçados depois da
destruição da zona de muda – as
zonas de refúgio alternativas não
têm boas condições de alimentação
nesse período. Ref iro aqui o
exemplo da Zona de Caça
Associativa da Quinta de Fôja que
contribuiu para a reparação do dique
que controla a água no Paul do
Taipal (adjacente à zona de caça)
e assim foram resolvidos os
problemas do paul secar a partir de
Se t embro em anos menos
chuvosos.
A LPN é parceira do projeto EVOA
(
www.evoa.pt
), que criou melhores
condições para as aves aquáticas
no estuário do Tejo, tendo sido
comprovada a sua utilização como
local de muda para as espécies
residentes mas também para as
marrequinhas. Passou a ser zona
de refúgio para milhares de aves
aquáticas (chegaram a ser contadas
mais de 12000 marrequinhas neste
inverno), cinegét icas ou não.
A existência de zonas de refúgio e
o seu correcto ordenamento e
gestão são fundamentais para a
sustentabilidade da exploração das
aves aquáticas cinegéticas, mas
também permitem a conservação
de z ona s húm i da s , s eu s
ecossistemas e espécies.
Os caçadores da Ria de Aveiro sabem
que sem a zona de refúgio da
Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto
não teriam patos para caçar
As zonas de refúgio devem
ser geridas também para as aves
em muda, como este macho de frisada