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NOTÍCIAS
omo era hab i t ua l e
tradicional quando a caça
menor abundava em
Portugal e a perdiz era vista como
a rainha das espécies, precisando
recuar às décadas de 60 e 70 do
século passado, ao regime do
Estado Novo que incentivou a
cultura dos cereais de lés a lés do
país, os caçadores mais novos
passavam por um processo de
aprendizagem, aprendendo a
caçar em linha, a calcorrear todos
os cantos do monte, a fim de
colocar as perdizes na frente da
linha de caçadores e, desse modo,
permi t ir abundantes abates.
Os meus mestres na caça à perdiz
foram os lendários Varejões, de
Amarante, umas armas mortíferas
e q u a s e i n f a l í v e i s , q u e
consideravam as terras de Foz
Côa o seu chão sagrado. Uma
descendente da família, filha do
Sr. Álvaro Varejão, possui um
restaurante – Restaurante Varejão
– em Amarante, onde algumas
caçadas h i s t ó r i cas es t ão
documentadas em fotos e têm
lugar de honra numa das paredes
da sala de refeições.
Um destes dias, na companhia de
um amigo que na caça à perdiz e
no tiro a chumbo tinha méritos
firmados e era, sobretudo, um
cavalheiro na arte de bem caçar,
hoje uma espécie tão rara quanto
o lince da Malcata, saboreámos,
no dito restaurante, umas febras
de porco caseiro, em vinha d’alhos,
grelhadas na própria lareira e à
nossa vista. A dada altura do
repasto, e fazendo jus ao seu fino
humor e f i losof ia de vida,
presenteou-me com a seguinte
história:
“Dias antes, estivera ali a jantar,
sozinho. Na mesa ao lado,
estavam umas quantas estrelas
emergentes e durante uma ou
duas horas a conversa foi sempre
a mesma: “tiro para aqui, tiro para
acolá, traz cá, boca ao ferido,…”
e mais ninguém era
senhor de abrir o
bico na sala. ”
À saída, o meu
amigo tocou no
ombro do corifeu,
que, de facto, até
é um “matador”, e
d i s s e - l h e d e
passagem: “não
se esqueçam de
r e c o l h e r o s
cartuchos vazios
(…)”.
ARTUR FREITAS
Restaurante Varejão - humor em tecto de caçadores lendários
“Não se esqueçam de recolher os cartuchos…”