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CAÇA MAIOR
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por cães de proveniência duvidosa,
de var iados tamanhos com
predomínio dos pequenos e médios,
alguns arrebanhados à última hora
para a função. Por sorte ou batota,
ainda hoje ignoramos, ficámos na
mesma armada numa encosta
quase a prumo sobre a margem de
um dos rios atrás nomeados.
Podíamos observar por entre os
carvalhos e as giestas a posição de
cada um, ensurdecidos pelo fragor
da torrente impetuosa engrossada
pelas últimas chuvas de Fevereiro.
Não imaginávamos um porco a sair
da mancha pelo ribeiro turbulento,
p e l o q u e , c o n f o r ma d o s ,
apreciávamos a paisagem e, para
substituir os inexistentes telemóveis,
esbracejávamos pontualmente a
testemunhar a nossa total atenção
ao monte.
Quatro javalis encorpados correram
pela encosta, fora do alcance das
espingardas, acossados por alguns
coelheiros sem grande vontade de
lhes ferrarem os dentes. Magricelas,
com as costelas a furar o pêlo
avermelhado, atributo da raça,
mantinham uma distância segura,
pois os acossados, devido ao
tamanho, impunham respeito.
Vindos de sítio desconhecido foram
disparados uma série de tiros na
direcção dos bichos sendo bem
perceptível o zunido dos zagalotes.
Nunca pudemos identificar quem
teria atirado mas constatámos que
nenhum foi atingido. Nem nós…
Com toda a algazarra, dois corços,
talvez uma fêmea e a respectiva
cria, a não mais de trinta metros,
foram-se esgueirando em busca de
refúgio para o lado da linha de água,
deslocando-se paralelamente às
nossas posições. Podíamos ter
atirado se tal nos fosse permitido.
Nos longes ouviam-se mais tiros e,
por fim, aguardámos pacientemente
pelo transporte de regresso. Já no
ponto de encontro, com alguns
javalis expostos, enquanto se
contavam os falhanços e se
exemplificavam os lances, num
amb i en t e d i ve r t i do , f omos
confrontados por alguns caçadores
locais, que, admi rados, nos
perguntavam por que não tínhamos
alvejado “as cabras” (corços,
entenda-se): -
tão perto, como era
possível não as ver?
As nossas
j us t i f i cações l ega i s f o r am
consideradas de somenos e, numa
conclusão bem-humorada, um deles
exclamou: -
pois fizeram muito mal!
Perderam um bom petisco. Não
sabem o bom que é! Mas vão ficar
a saber! Convido-vos para a minha
casa e vamos já tratar de saborear
um naco na brasa…
E assim aconteceu. Para que o leitor
não fique com ideias erradas sobre
este assunto, esclareço que esta
carne excelente que nos foi dada
saborear provinha de um animal
atropelado. Se o foi com intenção
ou não, não sei responder, pois tudo
isto se passou há cerca de trinta
anos e a minha memória já não é
a mais fiável…
Texto e Fotos JAN