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CAÇA MAIOR
A ZC Nacional da Lombada, em
particular, e o Parque Natural de
Montesinho, em geral, este com
uma área na ordem dos 75 mil
hectares, part i lhados pelos
concelhos de Bragança e de
Vinhais, são um autêntico paraíso
– é o termo exacto – de vida
selvagem e um caso único no
tocante à b i od i vers i dade.
Por conhecer razoavelmente a
zona e para não perturbar a
equipa da caçada, é habitual
instalar -me num ponto de
referência e desfrutar, também,
da brama e dos encantos
oferecidos pela mãe Natureza,
neste caso tão pura como a mais
cristalina das águas.
No primeiro dia da caçada, uma
quinta-feira, na saída vespertina,
e após ter convivido alguns
minutos com o caçador nos
Serviços (instalações do ICNF,
entenda-se), em Bragança, a qual
não produziu efeitos, tive, todavia,
uma recompensa de luxo!
Passo a explicar: instalei-me junto
a um pinhal, no início do talhão
nº1 da zona de caça, em pleno
aceiro, para ouvir a brama e
vasculhar, com a ajuda de
binóculos adequados, também
pelo facto de ser caçador e de ter
já efectuado algumas caçadas de
aproximação a cervídeos, os
exemplares mais longínquos e
gozar o panorama. Numa altura
em que o sol começava a dar
sinais de fraqueza, eis que um
senhor veado – um bicho com
15/16 pontas e mais de 150 kg –
me aparece na minha frente, na
ordem dos 20/30 metros, mas,
curiosamente, e graças ao vento
que soprava, sem me detectar.
Deu-me sempre um dos flancos
e, posteriormente, as costas e
afastou-se no passo que trazia –
lento e sem ter dado pela
presença humana. Uma benesse
da Natureza.
Já tinha ganho a tarde, dizia para
com os meus botões, quando,
10/15 minutos mais tarde, seriam
19.15 horas, sensivelmente, vejo
um lobo a tomar a minha direcção,
procedente do local onde perdi o
contacto visual com o veado.
Fiquei quieto, parei quase de
respirar e, para minha admiração,
o lobo (um juvenil, por certo, após
contar a aventura a quem
conhece melhor a espécie), vinha
mesmo esbarrar-se comigo! A
cerca de 10 metros, sem exagero,
levantou a cabeça, olhou para
mim e arrepiou caminho, em
passo mais apressado. Não fiz
barulho, nem gesticulei. O lobo
parou um pouco mais à frente,
voltou a olhar para mim e, então
sim, desapareceu do meu campo
de visão.
Nem queria acreditar no que me
acabara de acontecer. Já tinha
visto lobos em plena natureza,
mas nunca a uma distância tão
próxima. A mãe Natureza quis-
me presentear com esta dádiva,
sabendo que sou um amante
daquilo que produz e também do
recurso caça, embora de forma
sustentada. É um património e
um legado que teremos de deixar
às gerações vindouras.
A.P.