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CAÇA MENOR
madrugada, para chegar a horas.
Avô e neto, gerações algo distantes
mas unidas pelo mesmo sangue e
pela mesma paixão, tomavam,
ainda, o pequeno-almoço, embora
o atrelado dos podengos já
estivesse colocado no automóvel
e pronto para a curta viagem.
Minutos depois, já rumávamos ao
local da caçada, em terrenos de
uma aldeia próxima da cidade de
Valpaços. O Sr. Joaquim fez
questão de convidar o seu habitual
companhei ro de caça, que
entretanto desistiu da actividade,
pela falta de coelhos, que nos
acompanhou, embora sem arma.
Levou uma cadela, fiel companheira
de muitas caçadas e alegrias
quando havia coelhos com fartura.
Outros tempos…
O outro amigo, com a sua pequena
mat i lha, já bat ia ter reno e
rapidamente nos juntámos a ele,
com o propósito de vasculhar o
monte e ir no encalço de um ou
out ro coelho. Os cães não
demoraram a assentar ideias, após
as hab i t ua i s co r r i das de
aquecimento, e a caçada foi
decorrendo, ao ritmo próprio.
Encostas suaves, pequenos
pedaços de monte e um vale com
uns silvados valentes, transmitiam
a ideia de que poderia haver
coelhos-bravos por ali.
Chegados aos silvados, os cães
deram sinal, apertaram um coelho,
ainda ficou a ideia de que iria
“espirrar”, mas acabou por não
mostrar o pêlo, por força da
cobertura vegetal e da densidade
das silvas.
O sol foi aquecendo o corpo e a
alma e o campo também. Uns tiros
ao longe indicavam que havia gente
aos tordos, mas a entrada não
poderia ser abundante… A “menor”
está mesmo fraca…
Entretanto, o companheiro de
jornada aconselhou o Sr. Joaquim
a subir e a bater uma parte de
monte sujo, onde avistara um
coelho em jornada anterior. Num
abrir e fechar de olhos, estávamos
por lá.
Sem cães e na pele de convidado,
fui colocado numa rodeira, por
norma utilizada pelo coelho para
escapar aos cães, beneficiando do
monte ser, ali, particularmente sujo.
Habituado a caçar e com muitos
anos de prática, tomei conta do
recado… e do caminho. Os cães
começaram a dar breves latidos,
sinal de pegada, presença de
pêlo… Mais atento, ainda. Fui,
todavia, acompanhando, ainda que
a passo de caracol, o avançar dos
cães, mas tendo sempre em conta
a rodeira, procurando ter sempre
o controlo do terreno, ao jeito de
um olho no burro e outro no cigano.
Uns met ros mai s à f rente,
procurando escutar os cães, olho
ligeiramente para trás e vejo o
coelho-bravo parado na berma da
rodeira mais próxima do monte.
Meti a Beretta à cara e o tiro foi,
obviamente, certeiro. A cerca de
15/20 metros, o coelho nem se
mexeu. Tinha o destino traçado.
Fui buscá-lo, pendurei-o e os cães
só passado uns minutos vieram ao
local do tiro, seguindo a pegada do
bicho.
Pouco depois, o Sr, Joaquim
assomou à rodeira e ficou contente
de me ver com o coelho pendurado.
Ainda pensou que eu tivesse
atirado a uma raposa… Contei-lhe
o episódio e não escondi que atirei
ao coelho parado. É mesmo assim,
embora muitos digam sempre que
o coelho ia na guita… Daí o epíteto
do caçador – mentiroso!
En t r e t an t o , o And r é , que
acompanhado da sua epagnuel
breton tinha dado umas voltas às
perdizes, juntou-se ao grupo dos
“mais maduros” e começámos a
caminhar para os automóveis.
Po r gen t i l e z a , o “ v e l ho ”
companheiro de caça do Sr.
Joaquim tinha disponibilizado a sua
casa para assarmos a carne o e o
fumeiro e convivermos um pouco
à mesa, afinal de contas um dos
prazeres da caça.
Após o café e as despedidas dos
outros amigos, ainda houve tempo
para constatar a forma como avô
e neto cuidam e estimam os “fiéis
amigos” e investem no progresso
e valorização do canil, cientes de
que só “com boa ferramenta” se
pode executar um trabalho de
qualidade.
Até pró ano, se Deus nos der saúde
e uns trocos.
A.P